José Maria Ferreira de Castro

<b><font color=0094E0>Escritor de grandes causas sociais<br>combatente da liberdade</b></font>

Urbano Tavares Rodrigues
A obra prima de Ferreira de Castro é para mim A Curva da Estrada, o romance onde ele nos apresenta a degradação de um político espanhol de esquerda que, cedendo a interesses pessoais, guina para a direita, acabando no entanto por ter fortes rebates de consciência que o levam a alterar de novo as suas posições em hora decisiva.
A limpidez e fundura da análise, a veemência dos sentimentos dão a esse livro corajoso uma real qualidade literária.
Autodidacta, de origem anarquista, com uma vida esforçada de lutador que cedo abraçou as grandes causas sociais, o Ferreira de Castro de A Selva e Emigrantes é estilisticamente desigual, ultrapassando por vezes pelo alcance da mensagem o que possa haver de tosco na expressão.
A Selva é, pela intensidade e riqueza das descrições, um romance universal, que surge bafejado pelo espírito generoso de um período mundial de atenção a condições de vida miseráveis, com ânsia de resgate.
De muitas das suas obras posteriores poderá dizer-se que se situam entre o romance de tese naturalista e o neo-realismo emergente. É o caso flagrante de A Lã e a Neve, longo romance que não está muito longe de certas ficções-inquérito como, por exemplo, a série Port wine de Alves Redol ou mesmo Uma Fenda na Muralha (a vida dos pescadores da Nazaré).
Em A Lã e a Neve assistimos aos ciclos e às transições da pastorícia à tecelagem e a subjectividade cede o passo a um herói colectivo que se aproxima da teorização neo-realista, não faltando sequer a perspectiva futurante.
Todos os artigos, todos os escritos de Ferreira de Castro, na sua diversificada actividade de profissional das letras, estão impregnados de espírito progressista. Aliás, para além do seu empenho numa transformação do mundo, de natureza social e económica, Ferreira de Castro é um defensor da preservação da natureza, que, nesse plano, antecipa muitas das preocupações ecológicas dos dias de hoje.
Convivemos muito e até possuo cartas suas, literárias e políticas. Quantas vezes o procurei para lhe pedir a sua assinatura em petições e documentos da oposição democrática na nossa luta contra o fascismo. Nunca me recusou a sua solidariedade.
Após o 25 de Abril teve ainda em vida homenagens nacionais.
Quando faleceu, o Partido Comunista organizou a guarda de honra aos seus restos mortais no grande salão da Sociedade Nacional de Belas Artes e eu estive lá, entre os intelectuais que o velaram, por turnos, com aquele vasto espaço sempre cheio de povo e de personalidades da nossa cultura.
Recordo momentos de afectuosas conversas que com ele tive em Sintra, no hotel onde se alojava e em que evocava viagens, amigos, a França da resistência, as suas andanças pelo mundo.
A ideologia da classe dominante é hoje avessa a uma figura e a uma obra como as de Ferreira de Castro. Daí que ele não seja publicado, embora a acção do Museu Ferreira de Castro vá em certa medida mantendo viva a sua memória.
Mas o mundo está a mudar, as sociedades de mercado em recessão. E as enormes desigualdades geram o crime, a revolta e a mudança.
Cidadãos-escritores como Ferreira de Castro vão ressurgir.


Mais artigos de: Temas

<b><font color=0094E0>A Literatura e o realismo social</b></font>

Desde Camilo que a nossa ficção se deixou seduzir (e, quanto a mim, bem) pela realidade portuguesa. A realidade que estava ao rés dos olhos, bastava para tanto fixar o olhar e ela entrava-nos pelos neurónios, a doer, atrelava-se à prosa como lapa à rocha em manhãs de vendaval. Com Camilo e com Júlio Diniz e, mais tarde, com Eça de Queirós, começávamos a saber pensar, literariamente, a realidade circundante, nossa e intransmissível – os seus mais obscuros linimentos.

<b><font color=0094E0>As greves de 1941 e 1946 na Covilhã<br>Tão distantes e tão presentes</b></font>

Já passava muito da meia-noite do dia 23 de Maio e, apesar do frio, a assistência que enchia o Auditório da Filarmónica da Vila do Carvalho não arredava pé. Cerca de duzentas pessoas assistiam, atentamente, ao debate sobre Ferreira de Castro e «A Lã e a Neve», realizado pelo Sindicato Têxtil da Beira Baixa e pela União dos Sindicatos de C. Branco, inserido num conjunto de iniciativas levadas a cabo para assinalar a passagem dos 110 anos do nascimento do escritor de Oliveira de Azeméis.

Os pobres aumentam e estão cada vez mais pobres

No passado dia 17 de Junho, numa entrevista na SIC Notícias, a uma pergunta da entrevistadora, o ministro Silva Pereira considerou que, no presente, meados de 2008, o nível de vida da população é melhor do que o existente à data da tomada de posse pelo actual executivo.

Uma das figuras maiores da arte portuguesa

O Pavilhão Central da Festa do Avante! vai homenagear, este ano, com uma exposição, Rogério Ribeiro, artista comunista, que desde sempre ligou a arte à vida, pintando a dureza da luta quotidiana pela sobrevivência e a luta política, cruzando-a com a poética da alegria de viver, de festejar o amor. Ali, o visitante vai poder apreciar algumas das obras mais significativas deste autor multifacetado.